Diário de um jovem qualquer

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Richard Hudson

Guest
Diário de um jovem qualquer

Caso venha a perder este livreto, ou que em algum momento de desgraça, eu parta e isto venha cair em suas mãos, fique sabendo, meu caro, de antemão meu nome, pois talvez encontre alguém que se importe com este simples viajante, ou não, dando minhas anotações a esta, ou queimando em uma lareira de alguma cidade.

Peço perdão por delongar-me. Deixe-me dizer logo quem sou. Meu nome é Richard, dado por minha mãe, pouco depois de me parir aos olhares de meu pai e a presença de um velho já cego, que seria meu avô. Apresentarei-os melhor em palavras à frente. Minha família teria outro sobrenome, porém, o mesmo velho sem visão teria o trocado por Hudson.

Sendo assim, somos uma família de apenas duas gerações fincadas nas terras americanas. Meu bisavô participara da guerra por independência, como membro dos ‘Homens-minutos’, lutando em Boston e depois se movendo para o sul, onde encontrou abrigo em uma fazenda sulista, vivendo nesta até morrer aos seus cento e alguma coisa anos, com uns vinte filhos, sendo ‘vovô’ o caçula, uma mulher viúva e poucas posses.

Esta viria a falecer algum tempo depois, enquanto seus filhos trabalhavam para o mesmo fazendeiro e assim fariam os filhos destes filhos e, por fim, os filhos dos filhos destes filhos.

Não fosse por uma vontade de participar da colonização do oeste, ainda estaria lá, plantando alguma coisa, cuidando do gado e indo algumas vezes a uma pequena cidade litorânea, vender o pouco que ganhávamos a um mercador qualquer por um preço mixuruca e uma garrafa de whisky para ambos os velhos lá de casa.

Mas pulemos isto, vamos logo ao dia que peguei um saco de feno, esvaziei-o e o enchi com algumas roupas e alguma comida roubada da dispensa do senhor daquelas terras.
 

Richard Hudson

Guest
Algumas noites antes

Era madrugada, passava em minha simples mente o plano, muitas e muitas vezes. Imaginava cada passo, não me recusando um sorriso a cada ponto terminado em minha mente. O frio entrava pela janela, balançado as cortinas furadas e soltando alguns gemidos de meu irmão mais novo, com um número absurdo de cobertores a lhe esquentar. O coitado pegou pneumonia e agora se vê deitado o dia inteiro, a tossir enquanto mamãe reza pela cura do garoto.

Pegando o saco, andei sorrateiramente pelo piso de madeira, passando pela mesa, onde o velho cego estava caído, ainda com as mãos na garrafa de vidro, guardiã do ‘precioso liquido’. Não dando importância, abri a porta, onde um vulto soltava fumaças, iluminado fracamente pela lua. Era papai. Então, tomando à esquerda, fui em direção de uma construção de apenas um andar e telhado de estrutura de madeira, coberto em alguns lugares por palha.

Entrando, fui a alguns caixotes, pegando embrulhos de carne, sal e mais outras coisas. Nisto, deixei numa corrida alucinada, alertando os cachorros da propriedade, que me perseguiriam alguns minutos pela estrada, aos latidos e disparos de um gordo vestindo um pijama caro, à porta da grande casa da fazenda.

Por fim, pude tomar fôlego e continuar caminhando em direção à estação.

Chegando lá, dei o que pude chamar de minhas economias por um bilhete, sentei-me e aguardei, juntamente com alguns homens vestindo roupas chiques e negras, assim como quentes cartolas, e com seus opostos. Pessoas desdentadas, usando farrapos e rosto coberto por uma barba mal feita e suja, ao contrário dos belos bigodes e cavanhaques ostentados por aqueles senhores. Não que eu pensasse em ser daquele jeito. Não, nunca! Acabei puxando conversa com um do segundo tipo, falando sobre as notícias que circundavam a região. Como a morte do dono do bar local, agora mantido por sua filha, uma bela mulher de seios fartos, cabelos ruivos e olhos verdes. Fiquei sabendo, também, de um mexicano recém chegado, pego aos amores com uma vaca do homem para quem trabalhava. O maldito acabou castrado, sem emprego, a pedir esmolas na principal, e única, rua da cidade.

E a fumaça do trem finalmente é vista ao longe, com sua frente robusta brilhando ao luar. É tão rápido a meus olhos que me questiono ‘Será que vai parar?’ e, sim, ele parou. Levantando-me, fui para onde me designaram, os vagões de carga, juntamente com meu amigo de conversa. É, pois os poucos dólares que tinha comigo não pagavam a passagem completa e acabei aceitando a oferta de trabalhar descarregando as bagagens dos que tinham quando chegássemos a Westar City.
 

Richard Hudson

Guest
Estórias de viagem

Fazendo fogo dentro do próprio trem, fiz o que pude para cozinhar a pouca comida que havia trazido. A viagem era longa e parecia interminável. Acabei por pegar emprestada uma panela levemente amassada e assim pude me virar. Também acabei tendo de dividir refeições com outros vagabundos, não que me inclua neste grupo, mas o grupo acabara me incluindo, que estavam na mesma situação que eu. Exceto um, sim, exceto um. Um tal de Jack, conhecido por todos como ‘Velho Jack’, um senhor de barba longa, com o acumular de suor e óleo ao longo dos anos, já branca pela idade, cabelos longos e enrolados, que não viam um pente há décadas, presos por um chapéu de couro – sabe-se lá onde conseguiu, olhos cinzentos e uma cicatriz que atravessava metade da cara em diagonal. Já era corcunda e usava roupas simples, parecia viajar com a locomotiva e era isso mesmo, como descobriria no dia seguinte.

Ele não estava na mesma situação, porque não fora empurrada para ela como o restante, direta ou indiretamente, estava ali porque decidiu estar ali, sem a influência de outras pessoas, largou o rifle de caça e colocou-se a viajar pela linha ferroviária, descendo em algumas cidades, subindo em outros vagões clandestinamente, essa era sua vida, simples, fácil, e até mesmo pouco arriscada. Nos momentos que dividia um prato de cozido com ele, em reposta, o mesmo nos entreteve com histórias de suas aventuras, como o dia que acabou enamorado pela dona de uma pousada, dormindo com a mesma, de forma a escapar do preço do quarto. Entretanto, a avarenta de corpo levemente roliço e cabelos castanhos, como o mesmo a descrevera, acabaria tomando as roupas do pobre diabo como pagamento não só do quarto, mas de seus serviços de ‘prazer’ na noite anterior.

Sim, demos boas risadas.

Outra personalidade interessante era um jovem franzino, de orelhas grandes e nariz proporcionalmente igual. Disse que seu nome era Will e contou algumas de suas histórias também. Entre elas, ouso citar, enquanto rio e escrevo sozinho, quando este chegou, vindo com uma caravana de mercadores do norte, a uma rústica e pequena cidade. Lá, encontrou emprego com o xerife local, um maldito viado que tinha como habito, tomar prazer nos infelizes presidiários. Numa de suas seções de violação, nosso bom Willie acabou metendo-lhe um tiro na bunda, de forma a proteger uma beldade presa por furto. Em agradecimento, nosso pequenino rapaz perderia a virgindade com a bela de cabelos negros, como nos contou, apesar de ninguém acreditar, de fato, nestas palavras.

Outras estórias foram contadas, mas não merecem serem citadas agora. Deixar-lhes-ei para o futuro.
 

Richard Hudson

Guest
Descendo no Oeste

Noites depois, finalmente coloco meus pés no terreno empoeirado e ensolarado do Oeste! Admito estar animado. Puxo o ar rapidamente, para soltá-lo depois lentamente, sentindo este novo local. A estação em que desci é pequena, tendo uma vila ainda menor à sua volta. Com apenas um bar, algumas casas, uma venda de um índio, como indica a placa ‘Secos e Molhados do velho sioux’ e poucas estruturas ainda em construção. Junto com John, sim, o nome daquele que iniciara conversa ainda na ‘terra de meus pais’, caminhei até o salão. Estava quente e merecíamos gastar as moedas que ainda tínhamos em um copo de cerveja.

Uma escadaria de três degraus levava a uma varanda com algumas poucas mesas, que levava à entrada do prédio, tendo este dois andares, sendo o primeiro, e principal, reservado ao balcão, às mesas, a um palco onde algumas dançarinas se apresentavam, ao som de um piano e uma escada que levava aos quartos para aluguel, ou estadia noturna. O local estava vazio, por exceção de um baixo homem, de quatro queixos, rosto liso, calvo e olhos negros. Ele se colocava na ponta dos pés, observando que entrava, sobre o balcão, enquanto limpava alguns copos.

Sentamo-nos em bancos de madeira e pedimos nossas bebidas. Deixando sua posição forçada, o barman colocou-se em direção de um barriu com um furo tampado por uma rolha. Com os copos em mãos, este retira a tampa e enche ambos. Jogando-os pela superfície lisa de alguma pedra cinzenta até nossas mãos. Em um gole, terminamos o copo. Enquanto meu amigo permaneceu, pedindo mais um, eu me levantei. Dando dois ou três tapas amigáveis em suas costas, recebendo um aceno em resposta, deixei o salão, indo em direção ao mercado do indígena.
 

Richard Hudson

Guest
Primeira parte - Terminada

A primeira parte dos relatos de Richard Hudson, um jovem recém-chegado ao oeste selvagem, terminam acima. A segunda parte contará, principalmente, dos primeiros investimentos deste jovem nestas novas terras, trabalhando em fazendas locais, sua ida a uma nova cidade, etc. Comentários são aceitos, positivos e negativos.
 

Ayanami

Member
eu quero ler mais. uma questao és do brasil? é que eu tava a ler e dei conta de uns erros de construçao, masque, se fores brasileiro ja estao correctos (nao leves a mal é apenas um...como dizer, um reparo da minha parte)

mas quero ler mais sim sra. nao é uma escrita usual, porem eu acho interessante :)
continua.
***
 

Richard Hudson

Guest
Sim, sou brasileiro. Apesar de admirar o português lusitano, não tenho conhecimentos sobre o mesmo. =/
 

tommyk

Guest
Parabéns, nunca vi bons textos brasileiros, apenas abreviaturas =|
 

Ayanami

Member
atençao que eu nao estava a criticar, é so que numas alturas parecia portugues de potugal, depois parecia portugues do brasil , por isso falei.

mas ja disse que esta bom? é que está mesmo :D
 

Richard Hudson

Guest
Sim, sim. Entretanto, algumas expressões aplicadas aqui, por exemplo, não são aplicadas ai e vice-versa. Como exemplo, o uso do 'c' em palavras como correcto. Se formos mais no passado, o português aplicado aqui vem do latim das massas, enquanto o dai vem do 'aristocrata'. De qualquer forma, continuarei a escrever como meu costume. Logo início a segunda parte.
 

tommyk

Guest
Sim, sim. Entretanto, algumas expressões aplicadas aqui, por exemplo, não são aplicadas ai e vice-versa. Como exemplo, o uso do 'c' em palavras como correcto. Se formos mais no passado, o português aplicado aqui vem do latim das massas, enquanto o dai vem do 'aristocrata'. De qualquer forma, continuarei a escrever como meu costume. Logo início a segunda parte.
Mas infelizmente, de correcto vamos passar a correto daqui a alguns anos :(
 

Richard Hudson

Guest
Língua da fera

Atravessando a única e larga estrada que cortava a cidade, se é que tal nomenclatura é adequada para esta pequena concentração de pessoas, onde o que há de mais importante é justamente a pequena casa construída próxima a linha, onde um, ou no máximo dois, passageiro aguarda com malas em mão, para deixar a terra das oportunidades.

Mas chega! Demorei-me demais em descrever tal local. Vamos à venda do índio. Indo à direita, ao fim de uma série de pequenas construções, feitas de madeira, recém-pintadas e de mesmo estilo arquitetônico, fui ao que mais parecia uma tenda indígena montada sobre uma pequena varanda. Uma escada improvisada por um caixote dava mais fácil acesso ao local.

De qualquer forma, é importante citar que, ao contrário de qualquer concepção que vossa pessoa tenha sobre as tendas indígenas, esta era bem maior, de tamanho suficiente para abrigar todas as quinquilharias de Língua da fera.

Sim, esse é o nome de quem colocava o único mercado do local para funcionar. Como descobriria mais tarde, obviamente. Porém, continuemos. Enfiando minha mão, de forma a levantar parte do pano, adentrando no local, me deparei com enorme fumaceira, engolindo vultos de caixas, animais empalhados, entre outras coisas. No centro disso tudo, um homem sentado de pernas cruzadas, com um cachimbo em mãos, encostado de leve no chão punha-se a queimar uma erva de aroma desconhecido para o recém-chegado que vos escreve.

Parecia estar de olhos fechados, e assim estava. Entretanto, minha presença não passou despercebida e em uma voz alterada pela atividade que realizava, assim como algumas tosses seguidas, o índio se apresentou, indagando em seguida sobre quem eu era.

Expliquei-lhe rapidamente sobre meu nome, o que lhe arrancou uma rápida risada, para depois, ser substituída por mais uma pergunta. ‘O que quer?’.

Acredito que se lembra dos embrulhos que comigo trazia. Apesar de escassos pelo uso na viagem, restava alguma coisa que poderia ser vendida. E era isso que desejava. Em um movimento que considero rápido, mostrei-lhe o saco que levava tudo o que havia roubado na terra do senhor de meus pais.

Abrindo os olhos e verificando rapidamente cada um dos bens, Língua da fera pega uma sacola de moedas, esvaziando-a de leve e depois, jogando-a em minha direção. A qual, desastrosamente, agarrei.
 

Sorilinne Wayne

Guest
:p Sempre tive curiosidade de visitar uma dessas tendas hehe
 

Ayanami

Member
"De qualquer forma, é importante citar que, ao contrário de qualquer concepção que vossa pessoa tenha sobre as tendas indígenas, esta era bem maior, de tamanho suficiente para abrigar todas as quinquilharias de Língua da fera."


adorei este paragrafo :D
 

Sorilinne Wayne

Guest
"De qualquer forma, é importante citar que, ao contrário de qualquer concepção que vossa pessoa tenha sobre as tendas indígenas, esta era bem maior, de tamanho suficiente para abrigar todas as quinquilharias de Língua da fera."


adorei este paragrafo :D
foi mútuo :p:p
 
Estado
Não está aberto para novas respostas.